O homem médio possui uma peculiar noção do tempo. Para ele, a percepção de seu cotidiano lhe indica que o tempo passa, corre para a frente em um passo e sentido inexoráveis, que nada nem força alguma no mundo pode interromper ou mudar essa marcha. Simplesmente intui profundamente que o tempo existe e transcorre, numa sólida ideia de que um evento acontece depois do outro obedecendo a uma linearidade irrevogável.

Para a ciência física newtoniana, o tempo é uma grandeza escalar, ou seja, não necessita de um sentido ou uma direção para ser representado, basta um valor numérico indicando que há um tempo numa determinada situação. Trata-se de uma grandeza quantificável ou mensurável, de grande simplicidade.

As três primeiras grandezas tangíveis da física newtoniana são as próprias dimensões do espaço. São as três dimensões que conferem forma à matéria – se eu me movimento para frente e para trás, esta é uma dimensão; se me movimento para um lado e para outro, esta é a segunda dimensão; e se eu me movimento para cima e para baixo, esta é a terceira dimensão -. Estas três dimensões em conjunto conferem forma e volume ao espaço e à matéria.

Foi Newton quem primeiro percebeu que a gravidade era uma força atuante sobre os corpos (matéria) e que esta força se relacionava com a velocidade, conferindo aos corpos em queda livre, além do próprio movimento de queda, uma determinada aceleração. Com seus estudos, Newton quantificou universalmente as equações do movimento relacionados ao tempo de deslocamento, concebendo uma exatidão universal às suas fórmulas.

Entretanto, uma nova teoria modificou essa concepção do universo de modo profundamente espetacular: Albert Einstein, em sua famosa “Teoria da Relatividade”, redefiniu o tempo e o espaço e, consequentemente, o próprio universo newtoniano. Einstein indicou que as três dimensões da matéria estavam intrinsecamente ligadas ao que ele definiu como o “espaço-tempo”, o que, para alguns se transformou na quarta dimensão do universo. Criando uma nova compreensão que, desde então, se definiu como “universo-einsteniano”. O tempo, agora, passava a ser mais uma concreta dimensão do universo, influenciada e associada às três anteriores. Bem como, todas as quatro dimensões em conjunto, também motivavam e conferiam sentido recíproco à força gravitacional. As dimensões físicas do universo passaram a influenciar recíproca e relativistticamente umas sobre as outras.[1]

A partir dessa impressionante teoria, a face do mundo foi modificada, da mesma forma desconcertante que foi quando se descobriu que a terra era redonda e que não havia mais um “para cima”, posto que o zênite [2] agora era relativo ao lugar onde o sujeito observador se encontrava. E, então, após Einstein, o tempo também passou a ser relativo.

Disse Einstein, explicando sua teoria, que em velocidades próximas à da luz “a massa se expande e o tempo atrasa”, tornando relativas as próprias concepções de energia, matéria e tempo, sintetizando esse conceito pela célebre fórmula “E=mC2”. [3]

Após tomar entendimento do pseudo paradoxo da relatividade do tempo, não caia na ingenuidade de duvidar da veracidade (e poder) dessa teoria, por mais que lhe pareça desconcertante. Pois basta recordar da realidade destrutiva das duas bombas atômicas já lançadas contra parcela da humanidade, ou da cotidiana energia elétrica que lhe está disponível a um toque de botão, oriunda das usinas atômicas, para constatar que ela é mais que concreta.

No entanto, essa notável teoria trouxe à tona uma nova (ou uma mesma) prisão ao homem: a de que existe uma velocidade limite no universo – a velocidade da luz – e que nada pode ir mais rápido que ela, nem mesmo a força gravitacional. Mesmo o tempo se tornando relativisticamente maleável, seu sentido (retardado ou adiantado) continuava inexorável. Ou, pior ainda, o tempo individual não passaria de um efeito decorrente da velocidade ou do movimento da matéria.

Assim foi novamente enclausurado o devaneio romântico do homem, que sonhava com fantásticas viagens no tempo, mas que continuaria irremediavelmente confinado à sua própria época (ou, mais especificamente, ao seu próprio tempo) de existência. Mesmo sendo este tempo particularizado por sua velocidade e posição, a ficcional viagem “através do tempo” (especialmente ao passado) permanece como uma impossibilidade.

Além da Ciência Física, outras áreas de estudo se utilizam do tempo para alcançar suas conclusões, como seria esperado. E, nestes casos, o tempo toma outros significados, de acordo com a utilidade que o termo possui nesses estudos. Entretanto poderá perceber, que são apenas significados, pois parece que, em sua essência, a noção newtoniana sobre o tempo, da qual se utilizam essas áreas de estudos, permaneceu sempre constante.

Parece ser incontestável que o universo possui uma entropia [4] impulsionada pelo movimento (alguns diriam pelo movimento através do tempo) e que, ao que se sabe, força alguma, nem mesmo o maior inimaginável acaso, consegue contrariar.

A verdade é que o conceito de tempo é algo ainda não completamente compreendido ou definido por muitas destas áreas que o estudam.

Como exercício de compreensão, pense, entretanto, no tempo como sendo apenas o resultado do movimento – movimento das três dimensões dentro dessas mesmas dimensões – e perceberá que o tempo não existe, posto que o que existe de fato é apenas o transcorrer do movimento da matéria, energia e tudo que o universo contém. Nossa característica intelectual é que nos confere a ilusão tão vívida e perturbadoramente enclausurante  do tempo, mesmo que o avanço dos estudos, atualmente nos tenha cambiado esta sua noção por essa “nova interpretação” do universo.

Ao contemplarmos o universo e sua realidade, um assombro nos salta diante de sua ordem (ou de sua arrazoada desordem). Desde o movimento das recém descobertas (e ainda teorizadas) cordas quânticas até dos objetos estelares supermassivos, passando pelo nanoscópico movimento dos elétrons e dos fótons, do resultado de influência das forças eletromagnéticas e de influência das forças gravitacionais, tudo parece indissociável e inexoravelmente relacionado entre si como causa e efeito. Daí, parece exsurgir o entendimento de que a entropia intrínseca ao movimento das coisas impossibilitaria alcançar o universo em seu “status quo ante”, pois o que foi nunca mais tornará a ser.

“E Deus movimentou o nada e criou o universo”.

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[1] Para oferecer uma imagem que confira uma parcial compreensão, imagine o espaço (o universo) como sendo uma membrana elasticamente  maleável, em que um objeto com massa (peso) ao ser posicionado sobre esta membrana provoque sua deformação. Imagine, agora, não só as dimensões do espaço, como o próprio objeto, o movimento e também o tempo sejam maleáveis relativisticamente entre si, Este seria, aproximadamente, o conceito de universo formulado por Einstein,

[2] zênite – Zênite é um ponto imaginário (localizado na esfera celeste) formado pela vertical traçada diretamente para cima a partir da cabeça de um observador. Nadir é o ponto diametralmente oposto.

[3] E=mC2 – A fórmula da relatividade geral de Einstein. E = energia; m = massa; C = constante universal (velocidade da luz). Então, a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Incluído na definição  desta equação, está o conceito de que cada um dos termos pode ser substancialmente convertido para o outro, na relativa proporção da fórmula. A energia, portanto, pode se transformar em massa ao quadrado da luz ou em movimento (velocidade), ou cada um deles relativamente um no outro – movimento pode se transformar em energia ou (o que é mais surpreendente) também em massa, reciprocamente. A massa pode ser convertida em energia E esta última possibilidade é exatamente o princípio utilizado na produção de energia pela fissão nuclear.

[4] entropia – é uma grandeza termodinâmica que mensura o grau de irreversibilidade de um sistema, encontrando-se geralmente associada ao que se denomina por “desordem”; tudo no universo parece que tende de uma “ordem” a uma “desordem”, ou do “simples” para o “complexo”, irreversivelmente. Ex. 1) Um maço de folhas de papéis atirado ao vento não cairá de forma ordenada a novamente formar o mesmo maço; 2) O universo surgiu de uma singularidade – um ponto muito simples, denso e ordenado que a tudo continha – e, após a grande inflação, formou a diversidade complexa dos átomos e, daí, as galáxias.

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